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Exclusivo: Após Zolpidem, EMS traz novo remédio para insônia no Brasil

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Daridorexanto, já vendido no exterior, aguarda aval da Anvisa e inaugura uma nova classe terapêutica no país.

 

farmacêutica brasileira EMS firmou um acordo com a suíça Idorsia para trazer ao Brasil o daridorexanto, um novo medicamento para o tratamento da insônia. O fármaco, comercializado no exterior como Quviviq, está em fase de avaliação regulatória pela Anvisa, segundo o vice-presidente da companhia, Marcus Sanchez.

 

A aposta não surge do nada. Hoje, a EMS já domina um dos principais tratamentos para insônia no país. O Patz, nome comercial do zolpidem, é um medicamento de prescrição controlada lançado em 2015 pela farmacêutica e frequentemente descrito como o padrão-ouro para indução do sono.

 

“Ele vende mais de 100 mil unidades por mês no Brasil e gera um faturamento anual superior a R$ 100 milhões. É um produto central no portfólio da companhia e amplamente conhecido por médicos e pacientes. Mas queríamos agora um produto que entregasse um diferencial”, afirma Sanchez.

 

É nesse ponto que entra o daridorexanto: o medicamento é visto pela empresa como uma evolução tecnológica, não apenas um substituto dos tratamentos já existentes. A promessa é oferecer um sono mais fisiológico e contínuo, próximo do sono natural. Segundo Sanchez, o fármaco foi desenvolvido para interromper sua ação no momento em que o paciente acorda, evitando o cansaço residual ao longo do dia.

 

O preço do sono

O acordo de licenciamento envolve um montante de US$ 20 milhões, além do pagamento de royalties atrelados ao desempenho comercial do produto. O desembolso será feito de forma escalonada: parte foi paga na assinatura do contrato, e o restante está condicionado ao cumprimento de marcos regulatórios até o lançamento. Os royalties passam a ser devidos após o início das vendas.

 

A estratégia da EMS vai além do mercado brasileiro. A companhia pretende solicitar o registro do medicamento no México, com expectativa de início da comercialização por volta de meados de 2028.

 

No Brasil, as projeções são agressivas. A meta é faturar cerca de R$ 75 milhões nos primeiros 12 meses após o lançamento. A projeção é de 16,5 milhões de comprimidos ao ano.

 

Ao menos neste primeiro momento, o modelo de negócio prevê que o medicamento chegue ao país totalmente produzido e embalado na Suíça. Embora a produção local até pudesse reduzir custos e ampliar o acesso, a Idorsia ainda não aceita a transferência de tecnologia, mantendo a fabricação sob controle próprio.

 

Sanchez diz não haver uma data oficial, mas que acredita que o medicamento comece a ser vendido em meados de 2027. Além do registro sanitário, o preço do medicamento no Brasil precisa ser definido pela CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos) antes de chegar ao mercado.

 

A aposta ocorre em um contexto de alta prevalência de distúrbios do sono no país. Dados de estudos citados pela Fiocruz e pela Associação Brasileira do Sono indicam que cerca de 72% dos brasileiros relatam algum tipo de alteração no sono.

 

A insônia está associada a impactos diretos na saúde mental, no risco cardiovascular e na produtividade no trabalho. Ainda assim, o tratamento segue marcado pelo uso recorrente de medicamentos com efeitos colaterais relevantes ou risco de dependência.

 

O acordo com a Idorsia também reforça a estratégia da EMS de acessar moléculas proprietárias desenvolvidas fora do país. A farmacêutica suíça tem no daridorexanto um de seus principais ativos globais.

 

Para a Idorsia, a parceria amplia o alcance do medicamento em um mercado relevante e ainda pouco explorado por terapias de nova geração.

 

 

Uso indiscriminado do zolpidem

O zolpidem pode provocar efeito rebote e episódios de amnésia ou esquecimento — fenômenos relativamente comuns nessa classe terapêutica. Há casos em que o paciente acorda durante a noite, fala ou realiza ações e não se recorda do ocorrido no dia seguinte.

 

A empresa reconhece ainda que parte dos usuários entra em ciclos de abuso, chegando a consumir dezenas de comprimidos, o que exige um processo estruturado de “desmame”, com retirada gradual da medicação.

 

Para mitigar esses riscos, a EMS afirma adotar uma série de medidas preventivas: o Patz é vendido exclusivamente sob receita controlada, há monitoramento próximo junto à classe médica e investimento contínuo em programas de educação médica, com discussão de casos clínicos e troca de experiências, inclusive internacionais.

 

A companhia diz não incentivar o uso crônico indiscriminado e reforça a importância do uso racional, alertando para os perigos da associação com álcool ou do consumo sem acompanhamento médico, especialmente em pacientes com depressão.

 

“Apesar de ser uma molécula considerada padrão-ouro, em nenhum momento incentivamos o uso inadequado do produto. Pelo contrário. Essa é uma preocupação central tanto nossa quanto dos médicos. Quando o produto é utilizado da forma correta, o resultado é positivo”, explica Sanchez.

 

Do sono às canetas emagrecedoras

Para a EMS, o movimento ocorre em paralelo a outros investimentos estratégicos. Em 2024, a companhia inaugurou a primeira fábrica de peptídeos do Brasil, voltada à produção de análogos de GLP-1, como liraglutida e semaglutida, usados no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2.

 

A farmacêutica foi a primeira a colocar na rua uma versão brasileira dos análogos de GLP-1, em agosto de 2025. Pouco mais de um mês depois do lançamento oficial, o desempenho já surpreendia, com as vendas 20% acima das expectativas.

 

À época, ao INSIGHT, Sanchez afirmou que a projeção de faturamento em 12 meses era de R$ 100 milhões a R$ 120 milhões.

 

Fonte: Exame
Foto: Reprodução