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Novo medicamento pode transformar a prevenção do AVC

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O neurologista Octávio Pontes Neto comenta estudo internacional apresentado nos EUA que aponta que o asundexian reduz recorrências sem aumentar o risco de sangramento.

 

“Um momento histórico.” É assim que o neurologista Octávio Pontes Neto define a apresentação do estudo Oceanic-Stroke no Congresso Americano de AVC, realizado na semana passada, em New Orleans, nos Estados Unidos. Na ocasião, pesquisadores divulgaram os resultados de um estudo internacional que avaliou o asundexian, uma nova molécula capaz de prevenir um segundo acidente vascular cerebral (AVC) sem elevar o risco de sangramento — um dos principais efeitos adversos das terapias atualmente disponíveis.

 

Pontes explica que o estudo responde a uma lacuna histórica da neurologia vascular: como prevenir a recorrência de AVC em pacientes que sofreram um AVC isquêmico não cardioembólico, ou seja, aqueles cuja causa não está relacionada a arritmias cardíacas. “Durante décadas, utilizamos basicamente antiplaquetários, como a aspirina, mas faltavam evidências robustas de novas estratégias realmente eficazes e seguras para reduzir ainda mais o risco de recorrência”, afirma.

 

Medicamento inovador

Segundo o neurologista, o asundexian pertence a uma nova classe de anticoagulantes orais que atuam de forma altamente específica sobre a coagulação, inibindo o fator XIa. “A proposta é bloquear a formação de trombos patológicos, responsáveis pelo AVC, sem interferir de maneira significativa na coagulação normal, que protege contra sangramentos. Esse conceito vinha sendo estudado há anos, mas agora, finalmente, contamos com um grande estudo de fase três com resultados claros”, comemora.

 

O asundexian é um inibidor oral do fator XIa (FXIa), administrado uma vez ao dia, indicado para a prevenção secundária do AVC. O FXIa é uma proteína da via de coagulação sanguínea envolvida tanto na trombose quanto na hemostasia, mas com papel mais relevante na progressão do coágulo do que na prevenção de sangramentos.

 

Diferentemente dos anticoagulantes tradicionais, que interferem em etapas centrais da coagulação e aumentam substancialmente o risco de hemorragias, o FXIa é considerado um alvo promissor. Acredita-se que sua inibição reduza a formação de trombos patológicos com menor impacto sobre a hemostasia, resultando em um perfil de segurança mais favorável.

 

 

Resultados do estudo

Entre janeiro de 2023 e fevereiro de 2025, o Oceanic-Stroke incluiu mais de 12 mil pacientes em 37 países — inclusive o Brasil. Todos haviam sofrido AVC isquêmico não cardioembólico ou ataque isquêmico transitório (AIT) de alto risco e já faziam uso de terapia antiplaquetária padrão.

 

Os resultados indicaram que o asundexian reduziu em aproximadamente 26% o risco de um novo AVC isquêmico em comparação ao placebo. “Essa diferença surgiu precocemente, nos primeiros meses, e se manteve ao longo de todo o acompanhamento. Além disso, observou-se redução dos AVCs mais graves, aqueles que deixam sequelas importantes ou levam à morte”, destaca Pontes.

 

Para o professor, o aspecto mais relevante do estudo é o perfil de segurança do medicamento. “Talvez o dado mais impressionante — que inclusive arrancou aplausos durante a apresentação — tenha sido o da segurança: não houve aumento significativo de sangramentos, nem mesmo de hemorragias cerebrais, que sempre representaram o maior temor quando se pensa em anticoagulação após um AVC”, explica.

 

Pontes conclui que, pela primeira vez, há evidências sólidas de que é possível ir além da aspirina, reduzindo ainda mais o risco de recorrência do AVC isquêmico não cardioembólico sem o custo de maior sangramento. “Isso muda o jogo. Ainda não se trata de uma opção para uso imediato na prática clínica, mas abre caminho para uma nova classe de medicamentos na prevenção secundária do AVC — algo aguardado há muitos anos”, finaliza.

 

Fonte: USP
Foto: Reprodução