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Por que as mulheres são mais propensas ao Alzheimer?

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Diferenças biológicas, hormonais e sociais ajudam a explicar por que o sexo feminino concentra mais casos e maior carga da doença.

 

doença de Alzheimer é a forma mais comum de demência e responde por cerca de 60% a 70% dos casos no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Trata-se de uma condição neurodegenerativa progressiva, que afeta a memória, raciocínio, linguagem e autonomia, com impacto direto na vida de quem recebe o diagnóstico e de quem assume os cuidados do paciente no dia a dia.

 

Dados globais mostram que a demência afeta mulheres de forma desproporcional. De acordo com a OMS, elas apresentam maiores taxas de anos de vida perdidos por incapacidade e de mortalidade associadas à doença. Além disso, concentram cerca de 70% das horas dedicadas ao cuidado de pessoas que vivem com demência, o que amplia os efeitos sociais e econômicos do problema.

 

No Brasil, o Relatório Nacional sobre a Demência, publicado em 2024, estima que cerca de 8,5% da população com 60 anos ou mais conviva com a doença, o equivalente a aproximadamente 1,8 milhão de pessoas. A projeção é que esse número chegue a 5,7 milhões até 2050, acompanhando o envelhecimento acelerado da população e os desafios de diagnóstico e cuidado.

 

A maior presença feminina entre os casos é explicada, em parte, pela maior expectativa de vida das mulheres. “As mulheres vivem mais, o que inflaciona os números, mas mesmo quando os estudos ajustam por idade, a carga da doença continua maior nelas”, afirma Marcelo Piquet Carneiro, psiquiatra, mestre e doutor pelo Programa de Ansiedade, Obsessões e Compulsões do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB/UFRJ).

 

Ou seja, essa não é a única razão. Segundo o especialista, a explicação mais aceita hoje envolve a combinação de fatores biológicos e de vida. Entre eles, estão o papel dos hormônios sexuais, especialmente a queda do estrogênio na menopausa, diferenças na resposta inflamatória do cérebro e a influência de fatores vasculares e metabólicos, como hipertensão, colesterol e diabetes, que também impactam o risco de demência.

 

Hormônios e envelhecimento 

Pesquisas mais recentes indicam que o estrogênio exerce um papel relevante na saúde cerebral feminina ao longo da vida, apontam os especialistas. O hormônio atua no metabolismo energético dos neurônios, na plasticidade sináptica e na modulação de processos inflamatórios, mecanismos associados à manutenção das funções cognitivas. Com o envelhecimento e a transição para a menopausa, a queda hormonal pode alterar esse equilíbrio em parte das mulheres.

 

“O estrogênio tem efeitos importantes no cérebro e, ao longo da vida, pode ter um papel protetor em alguns sistemas. A queda hormonal muda esse cenário, mas isso não significa que a menopausa cause Alzheimer”, explica o médico. Ele diz que a fase de transição entre a perimenopausa e o início da pós-menopausa é vista hoje como uma possível janela de maior vulnerabilidade, influenciada por fatores como genética, qualidade do sono, humor e saúde vascular.

 

Sintomas como lapsos de memória, dificuldade de concentração, piora do sono e alterações de humor são comuns nesse período e podem afetar o desempenho cognitivo no dia a dia. “Ter queixas cognitivas na menopausa não é diagnóstico de demência. Em geral, são sintomas flutuantes, ligados principalmente ao sono e ao humor”, ressalta Carneiro.

 

Natasha Ganem, psiquiatra associada da Associação Psiquiátrica do Estado do Rio de Janeiro (Aperj), acrescenta que o estrogênio também influencia diretamente processos envolvidos na fisiopatologia do Alzheimer, como o metabolismo das proteínas beta-amiloide e tau, além de reduzir a neuroinflamação e o estresse oxidativo. “A exposição cumulativa ao estrogênio ao longo da vida reprodutiva está associada a maior reserva neurobiológica, enquanto a perda abrupta aumenta a vulnerabilidade cerebral, sobretudo em mulheres com predisposição genética”, afirma.

 

 

Sintomas iniciais e diferenças entre homens e mulheres

Os sintomas do Alzheimer seguem um padrão de declínio cognitivo progressivo, mas podem se manifestar de formas distintas entre indivíduos e também entre homens e mulheres. Dificuldade para aprender novas informações, esquecimento frequente de eventos recentes, repetição de perguntas, problemas persistentes para encontrar palavras, desorientação no tempo ou no espaço e mudanças no julgamento, no planejamento e no comportamento não devem ser considerados parte normal do envelhecimento e exigem avaliação médica especializada.

 

Segundo Ganem, mulheres tendem a apresentar inicialmente alterações na memória episódica e verbal, além de maior percepção subjetiva das falhas cognitivas. Já nos homens, déficits visuoespaciais e executivos costumam surgir mais cedo. Essas diferenças podem influenciar o momento do diagnóstico, especialmente no caso delas. 

 

“Existe uma nuance importante. Mulheres costumam ter melhor memória verbal ao longo da vida e conseguem compensar por mais tempo em conversas e tarefas de linguagem, o que pode atrasar a percepção do problema”, explica Carneiro. Quando a doença se instala, o processo é o mesmo, mas a chamada “porta de entrada” pode variar, começando pela memória, linguagem, orientação ou funções executivas.

 

A psiquiatra chama atenção para o fato de que, em muitos casos, os primeiros sinais de um processo demencial podem se confundir com sintomas depressivos. “O diagnóstico diferencial correto é importante para uma atuação precoce, porque tempo é cérebro”, destaca. 

 

Fatores de risco para o Alzheimer no sexo feminino

Além da idade e do sexo, uma série de fatores ao longo da vida pode aumentar o risco de declínio cognitivo e demência. Problemas de saúde mental, por exemplo, têm impacto tanto no curto quanto no longo prazo. 

 

“Quadros como depressão e ansiedade podem, no início, simular sintomas de demência, ao afetar atenção, memória de trabalho e velocidade de raciocínio. No longo prazo, especialmente no caso da depressão recorrente, há associação com maior risco de declínio cognitivo”, afirma Carneiro.

 

De acordo com o médico, esses efeitos costumam se somar a outros fatores conhecidos, como alterações do sono, sedentarismo, consumo de álcool, isolamento social e doenças vasculares. Existem ainda outros fatores, como pressão alta, diabetes, colesterol elevado, obesidade e problemas cardiovasculares, tabagismo, apneia do sono, problemas de audição e visão não corrigidos e baixo nível de estimulação cognitiva. A maioria deles, no entanto, é modificável. 

 

Ainda em relação aos transtornos mentais, Ganem destaca que as mulheres apresentam maior prevalência de depressão e ansiedade durante a vida. “Esses transtornos estão ligados a alterações hormonais e inflamatórias, como aumento crônico do cortisol, neuroinflamação e redução da neurogênese no hipocampo”, explica. A psiquiatra também aponta a sobrecarga mental crônica, relacionada a múltiplos papéis sociais e ao cuidado de familiares, como um fator que contribui para desgaste cognitivo ao longo do tempo.

 

É possível prevenir ou reduzir o risco de Alzheimer?

Não há, até o momento, uma forma comprovada de prevenir completamente o Alzheimer. Ainda assim, evidências científicas indicam que intervenções ao longo da vida adulta podem reduzir o risco ou retardar o aparecimento dos sintomas. Segundo Ganem, o ideal é que essas estratégias comecem na meia-idade, entre os 40 e 55 anos, fase em que processos neuropatológicos da doença já podem estar em curso, ainda sem manifestações clínicas.

 

A atividade física regular é um dos pilares dessa abordagem. Ela melhora a circulação cerebral, reduz a inflamação sistêmica e estimula fatores neurotróficos ligados à saúde dos neurônios. “O exercício atua também sobre humor, metabolismo e saúde vascular, que são áreas diretamente relacionadas ao risco de demência”, afirma Carneiro.

 

O sono aparece como outro fator importante. Dormir mal de forma crônica compromete a memória e a atenção e pode favorecer o acúmulo de proteínas associadas ao Alzheimer. “O sono adequado é essencial para a depuração cerebral da beta-amiloide”, explica Ganem, ao citar o funcionamento do sistema linfático, responsável por essa limpeza durante o descanso.

 

A alimentação também entra no conjunto de medidas protetivas. Padrões como a dieta mediterrânea, com maior consumo de vegetais, fibras, azeite e peixes e menor presença de ultraprocessados, estão associados a melhores desfechos cognitivos em estudos observacionais.

 

Por fim, especialistas destacam a importância do estímulo cognitivo e da vida social. Ler, aprender coisas novas, manter hobbies e interações sociais contribuem para o aumento da chamada “reserva cognitiva”, que ajuda a proteger o cérebro. 

 

Fonte: Drauzio Varella
Foto: Reprodução