Faltam menos de 100 dias para a NR-1 entrar em vigor com a obrigatoriedade de incluir riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos. Em 26 de maio de 2026, a fiscalização começa, e o cenário para quem ainda não se moveu é, no mínimo, desconfortável.
Vou ser direta: quem vai começar agora, se a empresa não for excessivamente burocrática, ainda consegue dar início ao mapeamento. Mas dificilmente terá o inventário de riscos estruturado até o prazo. Plano de ação, menos ainda. Isso significa que muitas empresas vão entrar no período de vigência da norma sem estar em conformidade, e precisam saber o que isso implica.
Nos primeiros meses de vigência, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) não vai fiscalizar todas as empresas do país, isso seria impossível. O que vai acontecer é uma fiscalização por gatilhos. Os dois principais: denúncias e acidentes graves. Se um funcionário fizer uma denúncia ao MTE, por assédio, sobrecarga, ou condições de trabalho que afetam sua saúde mental, a empresa entra no radar. E quando o auditor chega, ele não olha só o documento, mas conversa com os trabalhadores, cruza informações e verifica se o que está no papel corresponde à realidade.
Setores que precisam se preparar para a visita
Alguns setores, pela própria natureza da atividade, têm risco psicossocial elevado. São áreas em que o exercício do trabalho já envolve exposição a fatores de adoecimento como assaltos, sequestros, ofensas, assédio de clientes, pressão extrema por metas, violência urbana, entre outros.
Se sua empresa atua em algum desses segmentos, a probabilidade de fiscalização é maior:
Telemarketing – O setor já possui um anexo exclusivo na NR-17, tamanha a especificidade dos riscos. Operadores lidam com metas agressivas, monitoramento constante, ofensas de clientes e pausas controladas. É um dos ambientes de trabalho mais associados a transtornos mentais.
Bancos e serviços financeiros – Pressão por resultados, metas de vendas, atendimento a clientes em situação de estresse financeiro, exposição a assaltos. O setor bancário historicamente lidera estatísticas de adoecimento mental.
Hospitais e serviços de saúde – Profissionais expostos a jornadas extensas, plantões, contato com sofrimento e morte, assédio moral hierárquico, falta de recursos. A pandemia escancarou o que já era crítico.
Educação – Professores enfrentam sobrecarga, desvalorização, violência escolar, pressão de pais, falta de suporte institucional. É uma categoria com índices alarmantes de burnout e afastamentos.

Setores com atendimento ao público ou exposição à violência urbana – Varejo, transporte, segurança e serviços públicos. Qualquer atividade que coloque o trabalhador em contato direto com o público e, portanto, sujeito a agressões, assaltos e situações de risco, merece atenção redobrada.
Se sua empresa está em algum desses setores e tem volume alto de afastamentos por CID-F (os códigos de transtornos mentais), prepare-se. A visita pode chegar antes do que você imagina, e a multa pode ser aplicada enquanto você ainda estiver se adequando.
O que fazer agora: checklist de urgência
Mesmo com o prazo apertado, não agir é a pior escolha. Ter um processo em andamento é significativamente melhor do que não ter nada. E demonstra boa-fé caso a fiscalização chegue antes da conclusão. Aqui está o que priorizar:Escolha um parceiro sério – e rápido.
Com a proximidade do prazo, o mercado está cheio de oportunistas. Consultorias novas, soluções milagrosas, promessas de conformidade em duas semanas. Desconfie.
Procure um parceiro com experiência real no mapeamento de riscos psicossociais. Que tenha atendido empresas do seu porte e segmento, possa oferecer benchmarks e comparações, dentro do seu setor e com outros, e que agregue boas práticas e agilidade na orientação do que funciona e do que não funciona. Experiência aqui não é diferencial, e sim requisito.
Seja criterioso na escolha do instrumento
Nem todo instrumento de avaliação, mesmo que validado cientificamente, é adequado para a sua realidade. Alguns pontos críticos:
Extensão: Existem excelentes instrumentos para pesquisa clínica, com mais de 100 perguntas, que levam uma hora para responder. Em uma empresa com milhares de funcionários, isso pode significar baixa adesão e uma exposição desnecessária frente à fiscalização. Questionário que ninguém responde é pior do que não ter questionário.
Cobertura dos fatores certos: Alguns instrumentos famosos e reconhecidos deixam de fora o mapeamento do assédio. O problema é que o assédio é hoje um dos fatores mais fiscalizados pelo MTE, justamente porque gera denúncias. Deixar esse fator de fora é assumir um risco desnecessário.
Correlação com impactos na saúde: Medir apenas o fator de risco psicossocial, sem correlacionar com os impactos diretos na saúde do trabalhador, dificulta o cálculo de severidade e probabilidade, que é exatamente o que a norma exige para classificar os riscos. Combinar escalas pode ser um caminho mais efetivo para conseguir avaliar os riscos e seus impactos corretamente. O desafio está em definir quais escalas são as melhores para essa correlação.
- Comece imediatamente e paralelize etapas
Se sua empresa ainda não iniciou, cada dia conta. O processo de contratação em grandes organizações costuma passar por suprimentos, jurídico e segurança da informação. Normalmente, essas etapas acontecem em sequência. No cenário atual, isso é um luxo que você não tem.
Converse com as áreas envolvidas sobre a urgência regulatória e busque paralelizar o que for possível. Assessment de segurança da informação pode rodar enquanto o jurídico analisa a minuta. Suprimentos podem acelerar a homologação se entender que é uma demanda de compliance. E não menospreze a etapa de segurança da informação e privacidade. Mapeamento de riscos psicossociais envolve dados sensíveis de saúde, e a LGPD se aplica integralmente. Não é qualquer parceiro que tem estrutura para proteger esses dados com a seriedade que o tema exige.
O que esperar dos próximos meses
Quem começar agora provavelmente não vai ter tudo pronto até 26 de maio, mas vai ter um processo em andamento. Vai poder mostrar que a empresa está se movendo, que contratou um parceiro, que iniciou o mapeamento, que está construindo seu inventário de riscos. Isso não é garantia de imunidade, mas é muito diferente de não ter nada. A empresa que chega à fiscalização com o processo em curso demonstra compromisso. A que chega sem nada demonstra negligência.
E, no fim das contas, a NR-1 não é sobre evitar multa, e sim sobre cuidar das pessoas que fazem a empresa funcionar. Os afastamentos por transtornos mentais já custam bilhões ao sistema previdenciário e às próprias organizações. A rotatividade causada por ambientes tóxicos corrói a produtividade. O presenteísmo, gente que está no trabalho mas não consegue render, é uma epidemia silenciosa.
A norma está forçando as empresas a olhar para o que sempre preferiram ignorar. Quem entender isso vai sair na frente, e quem continuar negando vai aprender do jeito mais caro. Faltam menos de 100 dias, e o relógio está correndo.
*Tatiana Pimenta é fundadora e CEO da Vittude, referência no desenvolvimento e gestão estratégica de programas de saúde mental para empresas.





