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Para manter relevância, farmácias têm de agregar valor além da gôndola

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O setor farmacêutico deve ganhar nos próximos dias mais um elemento que promete alterar a fórmula dos negócios do segmento, que nos últimos anos tem sido desafiado a se reinventar diante da concorrência acirrada entre grandes redes e a digitalização.

 

No dia 2, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 2158/23 que estabelece critérios para o funcionamento de um setor de farmácias em supermercados, desde que em ambiente físico delimitado, segregado e exclusivo para a atividade. A proposta segue agora para sanção presidencial. Especialistas entrevistados pela AGÊNCIA DC NEWS apontam os desafios e os caminhos para a manutenção da relevância do segmento, que entre algumas das maiores redes, associadas da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), movimentou R$ 113,27 bilhões em 12 meses, de outubro de 2024 a setembro de 2025, crescimento de 13,55% em relação ao mesmo período anterior.

 

Com a expansão dos marketplaces e a mudança nos hábitos de compra, o setor busca novas formas de gerar valor além da gôndola. Segundo estudo da Neogrid em parceria com a Opinion Box, 64% dos consumidores ainda preferem os pontos de venda físicos, mas 32% alternam entre físico e digital. Parte importante do consumo tradicional migrou para o online: vitaminas, dermocosméticos, higiene e itens de autocuidado, todos entre os mais comprados em farmácias, são facilmente encontrados no e-commerce. A pressão concorrencial se intensifica com debates regulatórios e de legislação, como a possibilidade de venda de Medicamentos Isentos de Prescrição (MIPs) em novos canais, como previsto no projeto de lei aprovado na Câmara Federal.

 

Para Américo José, sócio-diretor da Cherto Consultoria, as redes farmacêuticas estão diante de um ponto de inflexão, com o varejo físico sendo pressionado por digitalização, mudança de comportamento dos clientes e players globais que operam com outra lógica de escala. “Se a farmácia competir apenas na gôndola, perde relevância. Serviço é o território que protege margem e garante futuro.” É nesse cenário que o modelo de hubs de saúde ganha tração. Para não depender exclusivamente da venda de produtos, as redes estruturam salas clínicas, exames rápidos, orientação qualificada e acompanhamento contínuo como forma de diferenciação. Não se trata apenas de modernização, mas de reposicionamento do negócio, com avanço de prestação de serviços.

 

 

Nesse ambiente, o farmacêutico reassume papel central na jornada de cuidado. Para Aline Alcântara, farmacêutica clínica, essa evolução era natural, já que a farmácia sempre foi um estabelecimento de saúde. “O que muda agora é que existe estrutura, protocolos e capacitação para fazer isso de forma segura”, disse a especialista. “O paciente quer alguém que oriente, traduza a informação e ajude a decidir com responsabilidade”, afirmou Aline, ao citar casos frequentes de pacientes com medicações conflitantes, idosos que retornam semanalmente para aferição de indicadores como pressão arterial e pessoas confusas após consultas a páginas de busca na internet ou a aplicativos de inteligência artificial. “Organizar, orientar e encaminhar de maneira correta salva pacientes de erros reais”, disse a profissional.

 

Diversas redes já se movimentam para não ficar para trás em um mercado competitivo, com 124 mil farmácias espalhadas pelo País, segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Um dos exemplos é o Grupo AMR Saúde, que reúne as bandeiras Drogaria Americana e Drogaria Poupe Já. A companhia estruturou modelos de atendimento clínico em diferentes níveis: do básico (com aferições e triagem) ao avançado (vacinação e telemedicina). Hoje, cerca de 20 unidades funcionam com salas clínicas. Para Lucas Félix, coordenador de operações do Grupo AMR, o impacto é comunitário, pois a farmácia é o primeiro ponto de contato com a saúde para milhões de brasileiros. “Quando o paciente descobre que pode ser cuidado ali, ele volta.”

 

O avanço dos hubs, porém, não deve ser generalizado. Américo José, da Cherto Consultoria, reforça que se trata de uma rota, não de uma ruptura. “Hubs não serão realidade em todas as lojas, mas podem ser decisivos na competição por serviços, e não apenas por preço.” A tendência se consolida como resposta estratégica em um varejo que deixou de ser só físico, mas também não é totalmente digital. Segundo os especialistas, a farmácia que equilibrar tecnologia, serviço e cuidado tem mais chances de preservar relevância em um mercado que muda rapidamente. Segundo o consultor, o tema deve ser requerer ainda mais atenção e assertividade diante da possibilidade de haver farmácias nos supermercados.

 

Pesquisa da Neogrid indica que 31% dos consumidores sempre pesquisam preços online antes de comprar. Já a edição de 2024 da pesquisa da Federação Brasileira das Redes Associativistas e Independentes de Farmácias conduzida pelo Instituto Febrafar de Pesquisa e Educação Corporativa (Febrafar/Ifepec), em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mostra que 26,9% dos consumidores fazem compras não presenciais e, desses, 88% utilizam WhatsApp ou telefone como canal, revelando um consumidor híbrido — digital para comparar, humano para confiar.

 

No estado de São Paulo, os farmacêuticos são regidos por várias leis e regulamentações que definem suas atribuições e responsabilidades. A legislação autoriza prestar serviços farmacêuticos, como aplicação de inalação ou nebulização, e atenção farmacêutica, inclusive domiciliar. Sempre com um farmacêutico responsável técnico no estabelecimento. Os farmacêuticos também devem seguir as normas e regulamentações do Conselho Federal de Farmácia (CFF) e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Esse assunto legal, segundo os especialistas ouvidos pela reportagem, tendem a tensionar a questão das farmácias nos supermercados.

 

DA BOTICA À FARMÁCIA – O primeiro boticário no Brasil foi Diogo de Castro, trazido de Portugal por Thomé de Souza (governador-geral nomeado pela coroa portuguesa) em 1549. Sua vinda se deu a partir da observação pela coroa portuguesa de que as pessoas por aqui só tinham acesso ao medicamento quando expedições portuguesas, francesas ou espanholas apareciam com suas esquadras – e nelas havia algum cirurgião-barbeiro ou tripulante com uma botica portátil cheia de drogas e medicamentos.

 

Os jesuítas que vieram para o Brasil colocavam em seus colégios de catequização uma pessoa para cuidar dos doentes e outra para preparar os remédios. Quem mais se destacou foi José de Anchieta, jesuíta que pode ser considerado o primeiro boticário de Piratininga (São Paulo). A partir de 1640, as boticas foram autorizadas a se transformar em comércio, dirigidas por boticários aprovados em Coimbra. Esses boticários que obtinham sua carta de aprovação eram profissionais empíricos, às vezes analfabetos, possuindo apenas conhecimentos corriqueiros de medicamentos.

 

A passagem do nome de comércio de botica para farmácia surgiu com o Decreto 2055, de dezembro de 1857, onde ficaram estabelecidas as condições para que os farmacêuticos e os não habilitados tivessem licença para continuar a ter suas boticas no País. O ensino farmacêutico nos tempos do Brasil colonial não existia, o aprendizado dava-se, na prática, nas boticas. Em 1809 foi criado dentro do curso médico a primeira cadeira de matéria médica e farmácia ministrada pelo português José Maria Bomtempo. Somente a partir da reforma do ensino médico, de 1832, foi fundado o curso farmacêutico, vinculado às faculdades de medicina do Rio de Janeiro e da Bahia. Por essa reforma, ficou estabelecido que ninguém poderia “curar, ter botica ou partejar” sem título conferido ou aprovado pelas citadas faculdades.

 

Fonte: Agência DC News
Foto: Reprodução