A atualização da NR-1 traz um impacto importante para o varejo farmacêutico porque amplia a responsabilidade das empresas na gestão de riscos ocupacionais, incluindo de forma mais explícita os riscos psicossociais.
No contexto das farmácias, isso significa olhar com mais atenção para fatores como pressão por metas, jornadas extensas, exposição constante ao público, situações de conflito com clientes e sobrecarga operacional. “Não se trata de criar um ambiente de preocupação, mas de estruturar melhor aquilo que muitas redes já fazem intuitivamente: cuidar das pessoas”, comenta, com exclusividade para o Guia da Farmácia, a diretora de Gente & Gestão da Febrafar e Farmarcas, Viviane Alvarenga.
Ela explica que a norma reforça que o gerenciamento de riscos precisa ser contínuo, documentado e integrado à estratégia do negócio. “Para o varejo farma, isso significa sair do olhar apenas físico (ergonomia, insalubridade, segurança) e evoluir para uma gestão mais completa da saúde ocupacional, incluindo aspectos emocionais e organizacionais”, pontua.
Farmácias e a adoção das mudanças
O primeiro passo é compreender que a NR-1 não exige soluções complexas, mas sim organização e sistematização. O varejo farmacêutico deve:
- Atualizar seu Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR)
- Mapear riscos psicossociais de forma estruturada
- Envolver lideranças nesse processo
- Documentar as ações preventivas
“Na prática, isso significa integrar RH, SESMT, jurídico e liderança operacional.
A adoção deve ser gradual, com foco em maturidade de gestão. Não é sobre gerar medo regulatório, mas sobre transformar a norma em uma oportunidade de evolução cultural”, diz Vivian, acrescentando que, para redes associativistas, isso também passa por orientação didática aos associados, com linguagem simples e exemplos aplicáveis à rotina da loja.

Ações concretas
Segundo Viviane, quando se pensa em ações é onde a norma se torna prática. Ela lista algumas ações aplicáveis e realistas:
- Mapear riscos psicossociais por meio de pesquisas estruturadas ou ferramentas validadas (ex.: avaliação de clima, carga de trabalho, suporte da liderança)
- Treinar gestores para identificar sinais de esgotamento ou sobrecarga
- Revisar metas e políticas de cobrança excessiva
- Estruturar canais seguros de escuta
- Organizar escalas de trabalho que respeitem descanso
- Promover programas de educação emocional e saúde mental
“O varejo farma é intensivo em pessoas e atendimento. Pequenos ajustes organizacionais têm impacto significativo na redução de estresse e conflitos.
Importante destacar: muitas dessas ações já existem em redes mais estruturadas. A NR-1 apenas reforça a necessidade de formalização e registro”, pontua.
Cenário psicossocial
O Brasil vem registrando um crescimento importante nos afastamentos relacionados a transtornos mentais e comportamentais nos últimos anos.
Segundo dados mais recentes do Ministério da Previdência Social (INSS), em 2025, foram concedidos 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais, o maior número já registrado na série histórica.1 Esse volume representa um aumento aproximado de 15% em relação a 2024. Ansiedade e depressão seguem entre as principais causas de afastamento no país.
Além disso, dados do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho (SmartLab – MPT/OIT) mostram que os transtornos mentais já figuram entre os principais grupos de causas de concessão de benefícios previdenciários no Brasil, consolidando uma tendência de crescimento contínuo.2
No varejo, que é um setor marcado por alta exposição ao público, metas comerciais e ritmo operacional intenso, os fatores psicossociais ganham ainda mais relevância.
“No varejo farmacêutico, especificamente, há uma combinação sensível de fatores: responsabilidade técnica do farmacêutico, contato direto com pacientes muitas vezes em situação de vulnerabilidade, exigências regulatórias rigorosas, metas comerciais e operação intensa em jornadas estendidas”, comenta Viviane.
Esse contexto exige uma atenção especial das lideranças e uma gestão cada vez mais estruturada dos riscos psicossociais. “A NR-1 não surge para penalizar o varejo. Surge para fortalecer a profissionalização da gestão desses riscos, incentivar práticas preventivas e apoiar as empresas na construção de ambientes mais saudáveis e sustentáveis. Mais do que uma obrigação legal, trata-se de uma oportunidade estratégica de cuidado com as pessoas e, consequentemente, de proteção ao próprio negócio”, destaca.
O que é importante entender sobre a NR1?
A NR-1 não deve ser vista como um desafio burocrático, mas como uma oportunidade de amadurecimento da gestão no varejo farmacêutico.
Empresas que estruturam bem seus processos de cuidado, liderança e organização do trabalho tendem a reduzir afastamentos, aumentar engajamento e melhorar resultados. “Cuidar da saúde emocional não é apenas uma exigência normativa, é uma estratégia de sustentabilidade do negócio”, finaliza Viviane.





