Estudo mostra que o evolocumabe pode proteger pacientes de alto risco antes mesmo de qualquer sinal de doença nas artérias.
Um medicamento já utilizado no tratamento de doenças cardiovasculares mostrou resultados expressivos em um território até agora pouco explorado: a prevenção de infartos e derrames em pacientes diabéticos de alto risco que ainda não têm diagnóstico de aterosclerose. Ou seja, antes que qualquer obstrução arterial seja detectada.
A pesquisa, conduzida por cientistas do Mass General Brigham e publicada no JAMA, um dos periódicos médicos mais respeitados do mundo, foi apresentada simultaneamente na reunião anual do American College of Cardiology. Os resultados indicam que o evolocumabe injetável aplicado a cada duas semanas pode mudar a forma como a medicina pensa a prevenção de doenças do coração.
O evolocumabe pertence a uma classe de medicamentos chamados inibidores de PCSK9, que atuam reduzindo o chamado colesterol LDL, popularmente conhecido como “colesterol ruim”. O LDL elevado é um dos principais fatores de risco para o entupimento das artérias e, consequentemente, para infartos e acidentes vasculares cerebrais (AVCs).
O mecanismo do medicamento é potente: segundo o estudo, ele é capaz de reduzir os níveis de LDL em cerca de 60%. Normalmente, o evolocumabe é prescrito em combinação com as estatinas — os remédios para colesterol mais comuns, para pacientes que já têm doença cardiovascular estabelecida. O que o novo estudo avalia é sua eficácia em quem ainda não chegou a esse estágio.
A pesquisa é uma análise de subgrupo do ensaio clínico randomizado VESALIUS-CV, financiado pela farmacêutica Amgen, fabricante do evolocumabe. Os pesquisadores acompanharam 3.655 pacientes com diabetes de alto risco mas sem aterosclerose significativa diagnosticada. Para ser classificado como “alto risco” no estudo, o paciente precisava preencher ao menos um dos seguintes critérios: ter convivido com diabetes por pelo menos dez anos, fazer uso diário de insulina ou apresentar danos em pequenos vasos sanguíneos causados pela doença.
Os participantes foram divididos em dois grupos: um recebeu o evolocumabe além do tratamento padrão com estatinas e outros medicamentos; o outro, apenas o tratamento convencional com placebo no lugar do novo remédio.
Após 48 semanas, os níveis medianos de LDL no grupo tratado com evolocumabe eram 51% menores do que no grupo controle: 52 mg/dL contra 111 mg/dL, respectivamente. Ao longo de quase cinco anos de acompanhamento, quem usou o evolocumabe teve 31% menos chance de sofrer um primeiro evento cardiovascular grave, categoria que inclui morte por doença coronariana, infarto do miocárdio ou AVC isquêmico.
Em números absolutos: ao final de cinco anos, 5% dos pacientes do grupo tratado haviam sofrido algum desses eventos, contra 7,1% no grupo placebo. A diferença pode parecer pequena em termos percentuais absolutos, mas representa uma redução relativa de risco clinicamente relevante para uma população de alto risco e sem doença já instalada.

A doença cardiovascular continua sendo a principal causa de morte no mundo. Reduzir o LDL é uma das estratégias mais eficazes para diminuir esse risco, e as estatinas são, há décadas, a primeira linha de tratamento. O problema é que, para pacientes sem aterosclerose diagnosticada — mesmo que diabéticos e, portanto, já em categoria de risco elevado —, o uso de medicamentos mais potentes como o evolocumabe não era prática comum.
O estudo questiona essa lógica. Segundo Nicholas Marston, cardiologista do Mass General Brigham Heart and Vascular Institute e autor correspondente da pesquisa, por mais de uma década o tratamento intensivo do colesterol ficou reservado a quem já tinha doença cardiovascular confirmada, conforme informações divulgadas pelo ScienceDaily. Os resultados agora apontam para um benefício de começar essa abordagem mais cedo.
IA na detecção de doenças cardiovasculares
Ao mesmo tempo em que novos medicamentos começam a antecipar o tratamento de doenças cardiovasculares, a inteligência artificial avança na direção complementar: identificar infartos mais cedo, inclusive nos casos mais difíceis de diagnosticar. Em pacientes com suspeita de síndrome coronariana aguda, médicos costumam depender de sinais específicos no eletrocardiograma, como a elevação do segmento ST — mas, na ausência desse indicativo, o diagnóstico se torna mais complexo e pode atrasar o início do tratamento.
Nesse cenário, algoritmos aplicados à leitura de ECGs têm mostrado vantagem. Em um estudo com 1.490 pacientes, um sistema baseado em IA foi capaz de identificar infartos com obstrução arterial em casos sem sinais clássicos com 84% de acurácia, contra 42% da interpretação convencional. A tecnologia também apresentou alta capacidade de descartar casos, com valor preditivo negativo de 98%.
Os resultados reforçam o potencial da IA como ferramenta de apoio à decisão clínica, especialmente em situações críticas em que o tempo é determinante. A expectativa é que esse tipo de abordagem ajude a reduzir atrasos no diagnóstico e amplie o uso de estratégias mais rápidas e precisas no atendimento cardiovascular.





