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Cannabis: pesquisadores enviam proposta à Anvisa para destravar estudos

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Documento reúne especialistas de todo o País e aponta entraves regulatórios que impactam a pesquisa científica e o potencial econômico do setor.

 

Um grupo formado por 58 pesquisadores de universidades e instituições de pesquisa brasileiras apresentou, à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), uma contribuição técnico-científica com propostas para o aperfeiçoamento das normas que regem o cultivo da Cannabis sativa para fins científicos e terapêuticos no País. O material foi encaminhado no âmbito do Edital de Chamamento nº 23/2025 e busca subsidiar o debate regulatório a partir de evidências científicas e da experiência acumulada por centros de pesquisa nacionais.

 

Integram o grupo pesquisadores ligados a universidades federais e estaduais, institutos de pesquisa, entidades científicas e associações de pacientes, abrangendo áreas como agronomia, genética vegetal, química analítica, farmacologia, toxicologia, medicina, saúde pública e pesquisa clínica.

 

No documento, os especialistas defendem regras consideradas mais proporcionais ao risco real das pesquisas com a planta. Entre os principais pontos, estão a redução de entraves burocráticos, a adoção de autorizações institucionais em substituição a permissões fragmentadas por projeto e a revisão de limites técnicos que, segundo o grupo, não contam com consenso científico internacional, como o teto prévio definido em 0,3% de THC – tetraidrocanabinol, o principal composto psicoativo da cannabis. Os pesquisadores também destacam a importância do reconhecimento de estudos realizados em contextos reais, inclusive aqueles desenvolvidos em parceria com associações de pacientes.

 

De acordo com os signatários, um marco regulatório excessivamente restritivo pode comprometer a soberania científica brasileira, dificultar a formação de recursos humanos qualificados e ampliar a dependência do País em relação a dados, tecnologias e insumos estrangeiros. A contribuição enviada à Anvisa tem caráter técnico e colaborativo e, segundo os pesquisadores, pretende contribuir para a construção de uma regulação alinhada à ciência, à inovação em saúde e às necessidades da sociedade.

 

 

Potencial econômico

 O debate regulatório ocorre em paralelo à discussão sobre o potencial econômico do cânhamo no Brasil – variedade de cannabis direcionada a fins medicinais e industriais, e não recreativos, por conter um teor de THC muito baixo – de, no máximo, 0,3%.

 

Dados reunidos em relatório da consultoria Kaya Mind, lançado em 2022 e atualizado no ano passado, indicam que a regulamentação do cânhamo poderia impactar positivamente mais de mil setores da economia. Projeções apontam que, no quarto ano após uma eventual legalização, a venda de insumos derivados da planta poderia alcançar cerca de R$ 4,9 bilhões, com arrecadação tributária estimada em aproximadamente R$ 330 milhões. Até o momento, apenas algumas instituições têm autorização para cultivar o cânhamo, que é dada pela Justiça apenas para casos em que haja destinação terapêutica.  

 

O estudo também estima que a área cultivada com cânhamo no País poderia ultrapassar 15 mil hectares no quarto ano de regulamentação, caso o mercado avance de forma estruturada. Atualmente, mesmo sem autorização para o cultivo, o Brasil importa diferentes derivados da planta, como fibras e matérias-primas industriais, o que evidencia a existência de demanda interna.

 

De acordo com Maria Eugênia Riscala, CEO da Kaya Mind, a empresa surgiu em 2021 para ajudar na organização e no crescimento do mercado com responsabilidade. Segundo ela, o objetivo era, inicialmente, focar no uso terapêutico da planta para depois expandir a atuação. Maria Eugênia e o sócio Thiago Cardoso, que trabalhavam em uma multinacional e tinham histórico de demanda por cannabis medicinal na família, decidiram começar os primeiros levantamentos sobre o tema. 

 

“Não havia informações sobre pacientes, nem preço médio dos produtos. A gente começou a fazer um estudo, nós dois, no meio da pandemia, e apresentou um projeto para um grupo que investe em cannabis fora do Brasil. No ano seguinte, o mercado já era de dezena de milhões de dólares. E, no outro ano, centena de milhões”, conta a CEO. 

 

Aos poucos, os estudos sobre possibilidades foram se expandindo para outros segmentos, como moda, construção civil, alimentos, cosméticos, entre outros. De acordo com Maria Eugênia, o cânhamo se destaca, além da possibilidade de alta lucratividade aos produtores, pelos empregos que pode gerar no campo. “Na Colômbia, por exemplo, estima-se a criação de 17,3 empregos por hectare cultivado, reforçando o potencial da cultura como ferramenta de desenvolvimento rural e diversificação da produção agrícola”. 

 

Entre os desafios apontados para a consolidação do mercado, estão:
  • a adaptação de sementes às condições brasileiras;
  • a definição de critérios técnicos para o teor de THC;
  • o desenvolvimento de maquinários específicos para cultivo e colheita;
  • a ampliação da aceitação social em relação ao cânhamo, frequentemente associado apenas ao uso adulto da cannabis. 

 

Maria Eugênia explica, porém, que a produção poderia se integrar bem aos sistemas já existentes, utilizando maquinário adaptável e promovendo rotação de culturas e recuperação do solo.

 

Condições para avançar

Para os pesquisadores que assinam a contribuição enviada à Anvisa, a atualização das regras pode criar um ambiente mais favorável, tanto para o avanço da pesquisa científica quanto para o desenvolvimento de uma cadeia produtiva nacional. Na avaliação do grupo, o Brasil reúne condições agrícolas, científicas e industriais para avançar, desde que o marco regulatório acompanhe as evidências científicas e as experiências já consolidadas em outros países. 

 

Instituições que assinam o documento:
  • Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
  • Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)
  • Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)
  • Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)
  • Universidade de Brasília (UnB)
  • Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc)
  • Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul)
  • Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf)
  • Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp)
  • Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila)
  • Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
  • Universidade Federal de Goiás (UFG)
  • Universidade Federal de Lavras (UFLA)
  • Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
  • Universidade Federal de Rondônia (Unir)
  • Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
  • Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ)
  • Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)
  • Universidade Federal do Piauí (UFPI)
  • Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
  • Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)
  • Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
  • Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf)
  • Universidade Federal Fluminense (UFF)
  • Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)

 

Centros de pesquisa, observatórios científicos e associações participantes:
  • Associação Brasileira de Pacientes de Cannabis Medicinal (Amame)
  • Associação Medicinal Brasileira de Cannabis (Ambcann)
  • Cânhamo Genômica Ciência (AgroCann)
  • Canabiologia, Pesquisa e Serviços (Canapse)
  • Dalla Instituto
  • Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais (Ehess)

 

Fonte: Agro Estadão
Foto: Reprodução