Morte da escritora expôs os riscos de uma condição crônica que segue provocando internações e milhares de mortes no Brasil e reforça a importância da atuação farmacêutica no cuidado contínuo.
A morte da escritora e roteirista Fernanda Young, aos 49 anos, em agosto de 2019, após uma crise de asma seguida de parada respiratória, trouxe visibilidade a uma doença frequentemente negligenciada. Embora seja comumente associada a sintomas controláveis, a asma pode evoluir para quadros graves e fatais, especialmente quando não há acompanhamento adequado ou adesão ao tratamento.
A asma afeta mais de 300 milhões de pessoas em todo o mundo e representa um importante desafio de saúde pública. No Brasil, a prevalência entre crianças varia de 20% a 24%, evidenciando o impacto precoce da doença. Entre 2016 e 2020, foram registradas mais de 400 mil hospitalizações relacionadas à condição, refletindo falhas no controle clínico e no manejo contínuo.
Mesmo com avanços no tratamento, a doença ainda apresenta impacto significativo na mortalidade. Dados do Ministério da Saúde indicam que a asma provoca, em média, mais de 2 mil mortes por ano no país, com registros recentes apontando mais de 2,4 mil óbitos anuais. Esse número evidencia que, apesar de tratável, a doença ainda é subestimada e, em muitos casos, mal controlada.
Nos últimos anos, a incorporação de terapias biológicas trouxe novas perspectivas para pacientes com asma grave, especialmente na forma eosinofílica. Medicamentos como mepolizumabe, benralizumabe, reslizumabe, dupilumabe e omalizumabe têm demonstrado reduzir em até 50% as exacerbações, contribuindo para maior estabilidade clínica e redução de hospitalizações. Ainda assim, o acesso a essas tecnologias permanece limitado e exige acompanhamento especializado.

Outro ponto crítico no controle da doença é o uso correto dos dispositivos inalatórios. Estudos apontam que cerca de 60,5% dos pacientes cometem erros na técnica de inalação, comprometendo a eficácia do tratamento. Entre os equívocos mais comuns estão a expiração inadequada antes da inalação, falhas na coordenação entre o acionamento e a inspiração nos inaladores pressurizados e o uso incorreto de dispositivos de pó seco. Esses erros reduzem significativamente a deposição do medicamento nos pulmões e aumentam o risco de crises.
Nesse contexto, a atuação do farmacêutico ganha relevância estratégica. Em 2026, o Conselho Federal de Farmácia lançou o Programa Cuidado Farmacêutico à Pessoa com Asma, com o objetivo de qualificar profissionais para o acompanhamento clínico de pacientes. A iniciativa inclui uma etapa teórica on-line e uma fase prática presencial, já com milhares de farmacêuticos inscritos em todo o país.
A formação busca desenvolver competências voltadas à avaliação de sintomas respiratórios, orientação sobre o uso racional de medicamentos, correção da técnica inalatória e integração com equipes multiprofissionais. A proposta está alinhada à campanha nacional sobre Uso Racional de Medicamentos, que em 2026 tem a asma como tema central.
Como parte dessas ações, o Conselho Federal de Farmácia lançará, no dia 5 de maio, data em que se celebra o Dia Nacional do Uso Racional de Medicamentos, uma campanha de conscientização voltada à asma. A iniciativa pretende ampliar o acesso à informação, alertar sobre os riscos do controle inadequado da doença e reforçar o papel dos farmacêuticos na promoção do uso seguro e eficaz das terapias.
Ao atuar diretamente na linha de frente do cuidado, especialmente em farmácias comunitárias e serviços de saúde, o farmacêutico contribui para a identificação precoce de sinais de descontrole, melhora da adesão ao tratamento e redução de complicações. Evidências mostram que intervenções educativas e acompanhamento contínuo podem reduzir exacerbações e internações, além de impactar diretamente na diminuição de mortes evitáveis.
A trajetória de Fernanda Young, interrompida de forma abrupta, reforça a necessidade de encarar a asma com a devida seriedade. Mais do que uma doença respiratória comum, trata-se de uma condição crônica que exige monitoramento constante, acesso ao tratamento adequado e, sobretudo, informação de qualidade. Nesse cenário, o fortalecimento da assistência farmacêutica se consolida como um dos pilares para mudar esse panorama no Brasil.





