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Apostas online já desviaram R$ 143,8 bilhões do varejo brasileiro, aponta estudo

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Pessoa apostando pelo celular em plataforma de apostas esportivas online
Varejo & Economia

Apostas online já desviaram R$ 143,8 bilhões do varejo brasileiro, aponta estudo

Pesquisa nacional do IFEPEC e da Febrafar mede o impacto das BETs no consumo das famílias, no endividamento e na saúde mental dos apostadores

Um levantamento inédito, realizado entre junho e agosto de 2026 pelo IFEPEC (Instituto Febrafar de Pesquisa e Educação Corporativa), em parceria com o NEIT/Unicamp e o Instituto Axxus, traça um retrato preocupante do avanço das apostas online no Brasil. Os dados mostram que o fenômeno deixou de ser apenas uma questão de entretenimento digital para se tornar um problema de renda, de crédito e de saúde pública — com reflexos diretos sobre o varejo, incluindo o segmento farmacêutico.

O estudo cruzou duas frentes de pesquisa: entrevistas com 1.500 apostadores das classes C, D e E em todo o país, e um levantamento com 2.020 profissionais de saúde mental (1.020 psiquiatras/neurologistas e 1.000 psicólogos), que avaliaram sob a ótica clínica a gravidade do comportamento de apostas entre seus pacientes.

O tamanho do problema, em números

R$ 143,8 bi
deslocados do varejo entre jan/2023 e mar/2026
99%
dos apostadores tiveram prejuízo nos últimos 30 dias
81%
dos apostadores possuem dívidas
R$ 30,6 bi
custo sanitário anual do jogo problemático (IEPS, 2025)

Segundo a pesquisa, 56% dos entrevistados apostam predominante ou exclusivamente em plataformas não oficiais, fora do marco regulatório vigente desde 2025. O celular próprio é o meio dominante de aposta (88%) e o Pix responde por 86% dos pagamentos — uma combinação que praticamente elimina a fricção entre a vontade de apostar e o desembolso do dinheiro. A frequência é intensa: 30% apostam diariamente e 52% fazem mais de 20 apostas por mês.

Situação financeira dos apostadores nos últimos 30 dias
Tiveram prejuízo
99%
Possuem dívidas
81%
Pagamentos atrasados
(entre endividados)
74%
Querem apostar menos
ou parar
97%
Acreditam que
conseguirão parar
9%

Fonte: IFEPEC/Febrafar, Pesquisa 1 — Entrevistas com apostadores, 2026.

O consumo essencial é a primeira vítima

O dado que mais interessa ao varejo é direto: quando o orçamento familiar é redirecionado para as apostas, o primeiro corte recai sobre o consumo básico. Entre os entrevistados, 48% reduziram compras de material escolar ou de manutenção da casa, e 41% reduziram a compra de itens essenciais — entre eles, alimentos, higiene e medicamentos. Além disso, 29% deixaram de pagar contas de luz, água ou aluguel por causa das apostas, e 27% chegaram a pedir dinheiro emprestado para apostar.

Comportamentos de risco relacionados às apostas (% que declarou “muitas” ou “algumas vezes”)
Reduziu material escolar/manutenção
48%
Reduziu itens essenciais (alimentos, remédios, higiene)
41%
Deixou de pagar luz, água ou aluguel
29%
Pediu dinheiro emprestado
27%
Retirou investimentos
11%

Fonte: IFEPEC/Febrafar, Pesquisa 1 — Entrevistas com apostadores, 2026.

Em termos macroeconômicos, o IFEPEC estima que a cada R$ 1 bilhão movimentado em apostas há um recuo de 0,7% no faturamento do varejo (dado CNC). A inadimplência, segundo a Serasa, atingiu 82,8 milhões de pessoas em março de 2026, com dívida média de R$ 6.728,51. O Banco Central estima ainda que 24 milhões de pessoas fizeram transferências via Pix para casas de apostas em 2024, e cerca de 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões às plataformas somente em agosto daquele ano.

O custo clínico: depressão, endividamento e risco de suicídio

A segunda etapa da pesquisa, feita com profissionais de saúde mental, revela a dimensão sanitária do problema. Entre os pacientes que apostam, os profissionais relatam altíssima prevalência de comorbidades psiquiátricas — muitas vezes associadas entre si.

62%
apresentam depressão maior/distimia
51%
têm transtornos por uso de substâncias
31%
apresentam ideação suicida
10–20%
necessitam internação psiquiátrica ou atendimento de crise

Risco extremo entre endividados por apostas

Entre os pacientes cujo principal estressor é o endividamento por apostas, os profissionais de saúde percebem 31% de prevalência de ideação suicida (ativa ou passiva), 22,7% de planejamento de suicídio e 2,7% de tentativas de suicídio após graves prejuízos financeiros. A literatura internacional citada no estudo indica que o risco de ideação suicida em pessoas com Transtorno do Jogo pode ser até quatro vezes maior que na população geral.

Outro achado relevante é a opacidade do vício no consultório: apenas 16,3% dos psiquiatras/neurologistas e 18,1% dos psicólogos relatam que os pacientes revelam o hábito espontaneamente — mais de 81% só falam sobre isso quando questionados diretamente sobre finanças ou estresse, o que favorece o subdiagnóstico. O tratamento, quando ocorre, é longo: de 1 a 3 anos ou mais, com custo comparável ao de dependências químicas graves.

Impacto no emprego e na família

  • 62% dos pacientes que apostam apresentam endividamento crítico (nome negativado) e 23,7% recorrem a agiotas
  • 41% faltam ao trabalho, 38% se afastam temporariamente e 36,8% perdem o emprego por causa da obsessão pelo jogo
  • O vício em apostas participa de 61,6% das rupturas familiares (separações e divórcios) relatadas pelos profissionais
  • Em 46% dos casos, a família do apostador sequer sabe que a pessoa aposta

Financiamento da saúde não acompanha o problema

O custo sanitário do jogo problemático no Brasil é estimado em R$ 30,6 bilhões por ano (IEPS, 2025) — sendo R$ 17 bilhões relativos a mortes por suicídio e R$ 13,4 bilhões relacionados a quadros de depressão. Ainda assim, a Lei nº 14.790/2023 destina apenas 1% da arrecadação das apostas para ações de saúde — uma fração irrisória diante do tamanho do problema.

O Levantamento LENAD III, citado no estudo, estima que 10,9 milhões de brasileiros (7,3% da população com 14 anos ou mais) apresentam comportamento de risco ou problemático com jogos de aposta, sendo que 1,4 milhão já preenche critérios clínicos para o Transtorno do Jogo — reconhecido pela OMS como transtorno de controle de impulsos (CID-11 6C51).

Panorama comparativo das duas pesquisas

TemaPesquisa com apostadoresPesquisa com profissionais de saúde
Endividamento81% possuem dívidas; 74% com pagamentos atrasados62% com nome negativado; 23,7% recorrem a agiotas
Saúde mental51% relatam problemas de saúde; 41% dizem que a vida piorou62% com depressão; 31% com ansiedade; 27,9% com esgotamento
Família62% com problemas familiares; 46% escondem das famílias61,6% das rupturas familiares envolvem o vício
Trabalho e rendaGasto crescente (43%) e consumo essencial reduzido (41% a 48%)41% faltam ao trabalho; 36,8% perdem o emprego
Perda de controle97% querem parar; apenas 9% acreditam que conseguirãoJogo como fuga com ilusão de controle (31,1%) e efeito dopamina (33,4%)

Recomendações do estudo

O relatório encerra com dez recomendações de política pública, que incluem o fortalecimento da fiscalização sobre operadoras de apostas, restrição à publicidade e às promoções (bônus e cashback estimulam 88% dos apostadores a apostar mais), proteção específica a grupos vulneráveis, ampliação do atendimento no SUS e na rede psicossocial (CAPS), instituição de protocolos de rastreio clínico sobre hábitos de aposta e revisão da destinação de recursos da Lei nº 14.790/2023 para a saúde.

Estudo: “Apostas Online no Brasil — Um retrato dos impactos econômicos, sociais e de saúde”. Realização: IFEPEC (Instituto Febrafar de Pesquisa e Educação Corporativa), em parceria com o NEIT/Unicamp e o Instituto Axxus. Coordenação: Prof. Rodnei Domingues (Instituto Axxus), com apoio do Prof. Dr. Miguel Juan Bacic (NEIT/Unicamp). Pesquisa realizada em todo o território nacional entre junho e agosto de 2026.

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