Anvisa investiga 13 casos de cegueira ligados ao uso de canetas emagrecedoras
Notificações envolvem Ozempic, Wegovy, Wegovy FlexTouch, Rybelsus e Mounjaro; agência já havia incluído o risco nas bulas em 2025
Fonte: Jornal de Brasília / Folhapress · 28/09/2026
A Anvisa investiga 13 notificações de suspeita de Neuropatia Óptica Isquêmica Anterior Não Arterítica (Noiana) entre usuários de canetas emagrecedoras. A doença é um evento adverso raro desses medicamentos e pode provocar perda súbita e permanente da visão.
Os quatro primeiros medicamentos são fabricados pela Novo Nordisk e têm a semaglutida como princípio ativo; o Mounjaro, da Eli Lilly, contém tirzepatida. Segundo a Anvisa, as notificações não significam que os medicamentos tenham necessariamente causado a doença — a avaliação depende da qualidade e completude das informações clínicas de cada caso, incluindo confirmação diagnóstica, relação temporal e possíveis causas alternativas.
Em junho de 2025, a Anvisa já havia emitido alerta sobre a Noiana como evento adverso muito raro associado à semaglutida, determinando a inclusão desse risco nas bulas dos medicamentos com esse princípio ativo. A recomendação é que pacientes procurem atendimento médico imediatamente diante de perda súbita ou piora rápida da visão.
Como a doença afeta a visão
Segundo o oftalmologista Gustavo Bonfadini (Unifesp), a Noiana é provocada pela redução do fluxo sanguíneo para a parte anterior do nervo óptico — como um pequeno infarto na cabeça do nervo que leva as informações da retina ao cérebro. A perda de visão costuma ser indolor e é frequentemente percebida ao acordar, muitas vezes afetando parte do campo visual.
Fatores de risco associados à Noiana
- Idade acima de 50 anos
- Hipertensão, diabetes e colesterol elevado
- Doenças cardiovasculares
- Tabagismo
- Apneia obstrutiva do sono — fator especialmente relevante
O que dizem os especialistas
Para Clayton Macedo, professor da Unifesp e diretor de comunicação da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a associação entre agonistas de GLP-1 e Noiana é um evento extremamente raro — há sinal de associação, mas ainda é difícil estabelecer relação direta de causa e efeito. Um estudo publicado na revista Diabetes Care apontou incidência de 18 casos de Noiana por 100 mil pessoas-ano entre usuários de GLP-1, contra 7,2 casos entre usuários de DPP-4, outra classe de medicamentos para diabetes.
“Uma pessoa sem diabetes ou obesidade que queira utilizar a medicação apenas por razões estéticas, eu desaconselharia. Já para um paciente com diabetes e obesidade, os benefícios clínicos do tratamento são importantes.”
— Clayton Macedo, Unifesp / SBEMO que diz a Novo Nordisk
A fabricante contesta que os dados disponíveis permitam estabelecer relação causal entre semaglutida e Noiana. Segundo a empresa, uma análise agrupada de ensaios clínicos reunindo mais de 83 mil pacientes-ano com semaglutida identificou apenas três casos confirmados de Noiana, contra cinco entre participantes que receberam placebo — taxas abaixo de 0,01 caso por 100 pacientes-ano em ambos os grupos. A Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, não respondeu ao pedido de posicionamento da reportagem.
⚠️ Orientação para o balcão da farmácia
Pacientes em uso de canetas de GLP-1 devem ser orientados a procurar atendimento médico imediato caso percebam perda súbita de visão ou surgimento de manchas no campo visual — mesmo sendo um evento raro, o reconhecimento precoce é essencial.
Matéria baseada em reportagem de Vitor Hugo Batista (Folhapress) para o Jornal de Brasília, publicada em 28/09/2026. Leia a íntegra em jornaldebrasilia.com.br.





