Tratamento que retarda o diagnóstico do diabetes tipo 1 já é usado fora do país e reacende debate sobre rastreio precoce.
Uma mudança que começa antes dos sintomas
Para muitas famílias, o diagnóstico de diabetes tipo 1 chega de forma abrupta. A criança começa a beber muita água, perde peso rapidamente e, não raramente, dá entrada no hospital com cetoacidose. No entanto, a ciência começa a desenhar um cenário diferente: identificar o risco antes dos sintomas e intervir precocemente.
Esse é o contexto do Tzield, primeiro medicamento capaz de atrasar o diagnóstico clínico do diabetes tipo 1. A terapia, já aprovada nos Estados Unidos, é considerada um marco porque modifica a evolução da doença autoimune. Além disso, estudos científicos começaram no Brasil para avaliar seu impacto na população local.
Como o Tzield consegue atrasar o diabetes tipo 1
O Tzield é um anticorpo monoclonal que atua diretamente sobre linfócitos T, células do sistema imunológico responsáveis por atacar as células beta do pâncreas no diabetes tipo 1. Ao modular essa resposta autoimune, o medicamento desacelera a destruição das células produtoras de insulina.
O tratamento é feito por infusão intravenosa durante 14 dias consecutivos. Em um ensaio clínico publicado no New England Journal of Medicine, o uso do teplizumabe retardou o desenvolvimento do estágio clínico da doença em média dois anos.
Dois anos podem parecer pouco. No entanto, na prática, esse intervalo pode significar menos risco de cetoacidose no diagnóstico e mais tempo para planejamento familiar e acompanhamento médico estruturado.
Quem pode se beneficiar do tratamento
Hoje, o diabetes tipo 1 é dividido em três estágios. No estágio 1, a pessoa apresenta autoanticorpos, mas glicemia normal. No estágio 2, já existem alterações glicêmicas, porém ainda sem sintomas. O estágio 3 é o diagnóstico clínico tradicional.
O Tzield foi aprovado pela Food and Drug Administration para pessoas a partir de 8 anos que estejam no estágio 2. Ou seja, é necessário identificar previamente a presença de autoanticorpos e alterações metabólicas.
Isso traz um ponto central para o debate brasileiro: o rastreio.

Nova diretriz reforça rastreamento de autoanticorpos no Brasil
A Sociedade Brasileira de Diabetes passou a enfatizar a importância do rastreio de autoanticorpos, especialmente em familiares de primeiro grau de pessoas com diabetes tipo 1.
Esse movimento é estratégico. Enquanto o diagnóstico tradicional ocorre apenas no estágio 3, o rastreamento permite identificar a doença ainda silenciosa. Portanto, além de reduzir diagnósticos com cetoacidose, abre-se espaço para futuras terapias modificadoras da doença.
Especialistas ressaltam que o rastreio ainda não faz parte de um programa nacional no SUS. No entanto, centros acadêmicos brasileiros já iniciaram estudos para avaliar a aplicabilidade da medicação e do rastreamento em nosso contexto.
O que ainda precisa ser esclarecido
Embora o avanço seja significativo, é importante manter equilíbrio na interpretação dos dados. O Tzield não previne definitivamente o diabetes tipo 1. Ele retarda sua progressão.
Além disso, o medicamento apresenta possíveis efeitos adversos, como erupção cutânea, dor de cabeça e redução temporária de linfócitos. Em casos raros, pode ocorrer síndrome de liberação de citocinas, exigindo monitoramento especializado.
Outro ponto relevante é o custo elevado do tratamento nos Estados Unidos. Portanto, qualquer eventual incorporação no Brasil dependerá de avaliação regulatória, análise de custo-efetividade e decisão das autoridades sanitárias.
O impacto prático para quem convive com diabetes
Para quem já vive com diabetes tipo 1, o tratamento não substitui a insulina. Ainda assim, o conceito por trás do Tzield representa uma virada de chave: a possibilidade de agir antes do colapso metabólico.
Isso altera o paradigma. Em vez de reagir à emergência, a medicina passa a monitorar e intervir precocemente. Além disso, reduz-se o trauma associado ao diagnóstico inesperado.
Após mais de um século da descoberta da insulina por Frederick Banting, a capacidade de modificar a história natural da doença é vista por pesquisadores como um divisor de águas.
Ainda não é a cura. No entanto, abre caminho para novas terapias imunomoduladoras que podem, no futuro, ampliar esse intervalo ou até evitar a progressão em determinados grupos.
Para famílias com histórico de diabetes tipo 1, a pergunta agora deixa de ser apenas “quando vai acontecer?” e passa a incluir “é possível ganhar tempo?”.





