Cristália prepara pedido à Anvisa para testar medicamento com potencial de reverter overdoses.
O chamado Lipossoma de Resgate foi desenvolvido pela UFG e deverá avançar para estudos clínicos em humanos após conclusão da etapa pré-clínica.
Fonte: Guia da Farmácia · Foto: Reprodução
O Laboratório Cristália iniciou os procedimentos para solicitar à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorização para realizar estudos clínicos de uma substância com potencial para reverter overdoses causadas pelo uso abusivo de diferentes medicamentos e drogas ilícitas, como a cocaína.
Desenvolvido pelo departamento de Nanotecnologia Farmacêutica da Universidade Federal de Goiás (UFG), por equipe liderada pela professora Dra. Eliana Martins Lima, o medicamento, chamado inicialmente de Lipossoma de Resgate, foi apresentado em 30 de julho, durante evento em Campinas (SP).
Como funciona o Lipossoma de Resgate
A nanotecnologia farmacêutica tradicionalmente estuda o uso de partículas extremamente pequenas para transportar moléculas medicamentosas no organismo. No projeto desenvolvido pela UFG, a proposta foi inverter essa lógica.
“Essas nanopartículas são tão pequenas que só podem ser vistas por microscópios de alta precisão. Em determinado momento tivemos a ideia de fazer o contrário. Em vez de usá-las para enviar medicamentos ao organismo, decidimos usá-las para sugar substâncias nocivas ao organismo.”
— Dra. Eliana Martins Lima, Universidade Federal de Goiás
Possíveis aplicações
• Intoxicações por drogas ilícitas.
• Excesso de medicamentos.
• Erros de administração de remédios.
• Situações envolvendo exposição ou ingestão de substâncias tóxicas.
• Casos em que o organismo precisa eliminar rapidamente uma substância nociva.
Segundo a pesquisadora, o objetivo é que a tecnologia possa ser utilizada em diferentes cenários de intoxicação grave, não apenas em situações relacionadas ao consumo de drogas ilícitas.
Pesquisa clínica
De acordo com Rogério Almeida, vice-presidente de Desenvolvimento, Pesquisa & Inovação do Laboratório Cristália, os testes pré-clínicos realizados com animais já foram finalizados.
O laboratório está agora produzindo os lotes que serão utilizados nos estudos em humanos e finalizando a documentação necessária para submeter à Anvisa o pedido de autorização para início da pesquisa clínica.
O Instituto Bairral de Psiquiatria, que participará dos estudos com pacientes, acompanha o processo e firmou acordo de cooperação com o projeto durante o evento de apresentação.
Próximas etapas dos estudos
Fase 1: avaliação da segurança do medicamento.
Fases 2 e 3: avaliação da eficácia para retirar diferentes tipos de drogas do organismo.
Para cada substância será necessária uma pesquisa específica. Cocaína e lidocaína foram escolhidas como os primeiros alvos da investigação clínica.
Parceria entre universidade e indústria
As pesquisas que deram origem ao projeto começaram em 2018, a partir do trabalho da equipe da UFG. A Dra. Eliana Martins trabalha com lipossomas desde 1993 e concebeu a aplicação dessas nanoestruturas como estratégia de resgate em intoxicações graves.
A parceria com o Cristália foi formalizada em 2024. Desde então, cerca de R$ 58 milhões já foram investidos no desenvolvimento.
“Mais uma vez reunimos a experiência acadêmica da universidade pública e a capacidade industrial, regulatória e de desenvolvimento do Cristália para trazer soluções inéditas ao País. Posso dizer que este é um dos dias mais felizes da minha vida, apresentando uma inovação que pode salvar milhões de pacientes.”
— Dr. Ogari Pacheco, cofundador e presidente do Conselho do Laboratório Cristália
Acordo com o Instituto Bairral
A cerimônia de assinatura do acordo de cooperação reuniu representantes do Cristália e do Instituto Bairral de Psiquiatria, sediado em Itapira (SP), instituição que deverá participar dos testes clínicos.
“Nós, do Bairral, temos atuado há 88 anos com absoluto empenho para cumprir a missão de promover o bem-estar e a qualidade de vida dos seres humanos. Construir parcerias sólidas como a do Cristália é a melhor forma que temos de contribuir com a ciência.”
— Luiz Alberto de Melo, presidente do Conselho Diretor do Instituto Bairral de Psiquiatria
O avanço para os estudos em humanos dependerá agora da análise e autorização da Anvisa. Caso o desenvolvimento clínico avance conforme o planejado, o projeto poderá abrir uma nova frente terapêutica para o atendimento de pacientes vítimas de intoxicações graves.
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