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Remédios em falta: A irregularidade do abastecimento de psicotrópicos

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Falta de haloperidol nas farmácias preocupa pacientes psiquiátricos em todo o país
Sincofarma / SP
Saúde & Abastecimento · Agosto de 2026
Desabastecimento

Falta de haloperidol nas farmácias coloca em risco tratamentos psiquiátricos em todo o país.

Desde o primeiro semestre, pacientes enfrentam dificuldade para encontrar um dos antipsicóticos mais usados na psiquiatria, essencial também para cuidados paliativos.

Fonte: CNN  ·  Foto: Reprodução

Como se não bastassem todos os determinantes sociais, ambientais e comportamentais do adoecimento mental — da pobreza à violência, do estresse à poluição, do álcool às bets —, agora é preciso lidar com a falta de um dos medicamentos mais importantes na psiquiatria. Desde o primeiro semestre, brasileiros enfrentam dificuldade para encontrar o haloperidol nas farmácias, colocando em risco a continuidade de seus tratamentos.

Um marco histórico da psiquiatria

Desenvolvido nos anos 1950, na esteira da revolução psicofarmacológica da psiquiatria, o haloperidol foi um dos medicamentos responsáveis pelo esvaziamento dos manicômios, junto com seu antecessor, a clorpromazina, transformando a história da psiquiatria a partir da transformação da história pessoal dos pacientes.

Até então, alguns tipos de transtornos mentais eram como uma sentença para a vida toda: a pessoa começava a apresentar sintomas como alucinações, passava a se sentir perseguida, monitorada, ameaçada, tornando-se muitas vezes violenta, terminando por ser recolhida às grandes instituições asilares. A ineficácia dos tratamentos de então determinava o destino dessas pessoas, que passavam o resto da vida internadas.

Os novos neurolépticos, embora também não promovessem cura — como, de resto, não o fazem até hoje —, controlavam os sintomas o suficiente para que os pacientes deixassem de se sentir perseguidos, parassem de ouvir vozes e, consequentemente, não precisassem mais ficar internados. Um verdadeiro êxodo manicomial teve início nesse período, embora, por vários motivos, ainda demorasse a se completar.

Medicamento essencial da OMS

Apesar dos avanços na psicofarmacologia, nunca mais houve uma revolução da mesma magnitude, tanto que até hoje o haloperidol tem espaço nas prescrições médicas. Os medicamentos que o sucederam, apesar dos menores efeitos colaterais e da maior tolerabilidade, elevaram mais o custo do que a eficácia dos tratamentos.

📋 Por que o haloperidol é considerado essencial

•  Consta na lista de medicamentos essenciais da Organização Mundial da Saúde (OMS)

•  Indicado tanto para tratar esquizofrenia quanto para alívio do sofrimento em cuidados paliativos

•  Um dos poucos antipsicóticos disponíveis em formulação de depósito, especialmente entre opções de baixo custo do SUS

•  Formulação injetável mensal melhora a adesão ao tratamento, frequentemente difícil com comprimidos diários

Desabastecimento desde fevereiro

Em fevereiro deste ano, houve uma interrupção temporária da importação do Haldol, marca de referência e mais conhecida da substância. A normalização demorou e até hoje está irregular.

Esta semana, tive um paciente que não conseguiu encontrar a medicação em oito farmácias de São Paulo, por exemplo. Eu mesmo fui a um estabelecimento em que a atendente me confirmou: chegam uma ou duas caixas, que logo acabam e demoram a ser repostas. Fonte: CNN

Com a falta do medicamento de referência, um efeito cascata de desabastecimento acaba acontecendo, prejudicando todos que precisam da medicação.

🚫 Riscos da interrupção do tratamento

Falando apenas da esquizofrenia, mais da metade dos pacientes cuja medicação é interrompida têm uma recaída no primeiro ano, e as taxas de internação sobem 100%.

+50%
Dos pacientes com tratamento interrompido têm recaída no primeiro ano
+100%
Aumento nas taxas de internação após interrupção do tratamento

Não é o primeiro remédio psiquiátrico a faltar no mercado, e certamente não será o último. Mas, quando acontece, é preciso levantar a voz e cobrar explicações e providências.

💡 Orientação para farmácias e drogarias associadas

Diante do desabastecimento, é fundamental que farmácias e drogarias mantenham comunicação transparente com pacientes e prescritores sobre a disponibilidade do medicamento, orientem sobre alternativas terapêuticas junto ao médico responsável e reportem casos de desabastecimento recorrente aos órgãos competentes.