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Peptídeos: o que são, para que servem e quais funcionam?

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Peptídeos: o que são, para que servem e quais funcionam?
Saúde

Peptídeos: o que são, para que servem e quais funcionam?

Moléculas produzidas pelo corpo viraram febre nas redes sociais, mas boa parte das promessas divulgadas não tem comprovação científica nem autorização da Anvisa

Fonte: Drauzio Varella

Os peptídeos, moléculas naturalmente produzidas pelo corpo, viraram assunto no TikTok, no Instagram e em outras plataformas, com vídeos que os apresentam como aliados para ganhar músculos, emagrecer e cicatrizar. Nos consultórios, segundo médicos, muitos pacientes chegam com prints sobre algum deles. O interesse ganhou força com as canetas emagrecedoras, que contêm medicamentos à base de peptídeos. Outros peptídeos e seus análogos são usados como remédio há décadas, mas boa parte do que circula na internet, com promessas milagrosas, não tem comprovação científica, não está aprovada para os usos anunciados e pode trazer riscos à saúde.

Para o endocrinologista André Câmara de Oliveira, da SBEM-SP, a febre veio na carona da semaglutida e da tirzepatida, que funcionam para obesidade e diabetes. Isso criou um raciocínio torto: se um peptídeo injetável emagrece, qualquer um deveria emagrecer, dar músculo ou rejuvenescer, e não é assim.

O que é um peptídeo

Peptídeos são moléculas formadas por cadeias de aminoácidos, unidos por ligações peptídicas. Muitos são produzidos pelas células a partir de instruções do DNA, e outros surgem do processamento de proteínas maiores. As proteínas têm o mesmo tipo de ligação, mas costumam ser maiores e mais complexas, e não há um limite de tamanho universal que separe os dois grupos. O biólogo Gustavo David dos Santos, professor da PUCPR, compara o peptídeo a um quebra-cabeça, e os aminoácidos às peças.

Para que servem

Depois de produzido, o peptídeo é quebrado em partes menores, e um dos fragmentos dá origem a um peptídeo biologicamente ativo, capaz de regular funções do organismo, como a glicemia, o apetite, a digestão, o crescimento, a reprodução e a resposta ao estresse. Para agir, ele se liga a receptores na membrana das células, no mecanismo chamado de chave-fechadura.

O corpo humano contém milhares de sequências de peptídeos identificadas pela ciência. Um estudo de 2022 na Nature Communications citou cerca de 300 peptídeos humanos com atividade biológica caracterizados até então. Entre eles estão a insulina, o glucagon e o GLP-1, hormônio que participa da regulação do apetite e da glicemia.

Os peptídeos feitos em laboratório

Os cientistas produzem peptídeos em laboratório desde o século 19. Em 1881, o químico alemão Theodor Curtius sintetizou uma molécula com dois aminoácidos unidos, um dos primeiros passos nessa direção. Hoje, os peptídeos de laboratório costumam ser moléculas com modificações em relação aos naturais.

Peptídeos usados como medicamentos

  • Insulina e análogos: tratamento do diabetes;
  • Semaglutida e tirzepatida: indicadas para diabetes tipo 2 e obesidade;
  • Glucagon: hipoglicemia grave;
  • Teriparatida: análogo do hormônio da paratireoide (PTH), indicado em certos casos de osteoporose;
  • Octreotida e lanreotida: análogos da somatostatina, usados na acromegalia e em alguns tumores neuroendócrinos.

Como saber se um peptídeo tem registro na Anvisa

É possível consultar os medicamentos registrados no Brasil na base de dados da Anvisa, pelo nome do princípio ativo ou do medicamento. É preciso verificar o produto específico: uma substância ter sido estudada ou ser usada em medicamentos no exterior não significa que qualquer produto que a contenha esteja autorizado no Brasil.

Alerta da Anvisa

Em julho de 2026, a Anvisa informou que peptídeos injetáveis divulgados nas redes sociais, como BPC-157, TB-500, GHK-Cu, CJC-1295 e ipamorelina, não estavam registrados como medicamentos no país. A agência alertou ainda que alguns desses produtos não têm regularização em nenhuma categoria sanitária. Leia o alerta da Anvisa.

Sinais de promessa suspeita

O endocrinologista André Câmara de Oliveira aponta sinais de alerta nas ofertas de peptídeos nas redes:

  • Promessas demais: o mesmo produto promete emagrecer, aumentar a massa muscular, melhorar a libido e rejuvenescer;
  • Resultados garantidos: promessa de eficácia garantida ou de ausência de efeitos colaterais;
  • Apelo ao “natural”: termos como “natural” e “bioidêntico” não garantem eficácia nem ausência de riscos;
  • Venda sem avaliação médica: ofertas por direct ou WhatsApp, sem consulta ou acompanhamento;
  • Confusão entre categorias: produto injetável anunciado como suplemento ou cosmético, sendo que suplementos alimentares não são para injeção;
  • “Antes e depois” como prova: imagens de transformação no lugar de dados de estudos clínicos;
  • Estudos fora de contexto: resultados em células ou animais divulgados como se valessem para humanos;
  • Aprovação estrangeira sem detalhes: o vendedor diz que o produto é “aprovado pelo FDA” sem informar a indicação, e no Brasil a regularização cabe à Anvisa;
  • Protocolos com vários peptídeos: combinações vendidas como tratamento personalizado, sem evidências de segurança e eficácia.

Quando o uso pode ser perigoso

O problema está no uso sem orientação médica, por exemplo para fins fitness. Segundo Oliveira, um dos principais riscos é não saber exatamente o que está sendo injetado: produtos comprados pela internet, muitas vezes rotulados como “uso em pesquisa”, podem ter dose errada, contaminação, outra substância no lugar ou falta de esterilidade, o que pode levar a infecção, abscesso ou reação alérgica.

Há também os riscos da própria molécula, que, dependendo da substância, podem incluir alterações na glicemia, inchaço, dores articulares, aumento da pressão, náuseas e desequilíbrios hormonais. Outro perigo menos lembrado é tentar tratar um sintoma sem investigar a causa: cansaço, perda de músculo, barriga crescendo ou libido baixa podem indicar diabetes, apneia do sono, hipotireoidismo, depressão, deficiência nutricional ou efeito de algum remédio, e o autotratamento atrasa o diagnóstico.

Segundo Santos, não há estudos robustos que comprovem a eficácia dos peptídeos divulgados para fins estéticos e de desempenho físico, e não há regulamentação sanitária que autorize a venda dessas substâncias para essas finalidades.

E os peptídeos manipulados?

A manipulação de medicamentos não é, por si só, ilegal ou inadequada. O erro é presumir que uma substância é segura e eficaz apenas porque foi preparada em uma farmácia de manipulação. Para Oliveira, “Manipular não é errado nem ilegal”, mas manipular uma substância sem estudo não cria o estudo.

Dúvidas sobre peptídeos, manipulação e exigências da Anvisa? Fale com o Departamento de Assuntos Regulatórios do Sincofarma/SP

regulatorios1@sincofarma.org.br

Matéria baseada em texto publicado no site Drauzio Varella. As informações não substituem a avaliação médica.