Pular para o conteúdo principal

Sincofarma SP

O que muda com a automatização da farmácia hospitalar no SUS

Compartilhe:

Facebook
LinkedIn
WhatsApp
Automação transforma a farmácia hospitalar e amplia a segurança na dispensação de medicamentos | Sincofarma/SP
Sincofarma / SP
Tecnologia & Farmácia Hospitalar · Agosto de 2026
Automação na Saúde

Robôs transformam a farmácia hospitalar e ampliam a segurança na dispensação de medicamentos.

Hospitais públicos e privados adotam sistemas automatizados para reduzir o tempo de entrega, melhorar a rastreabilidade, controlar estoques e ampliar a atuação clínica do farmacêutico.

Fonte: Medscape  ·  Foto: Reprodução

Um braço mecânico retira o medicamento da embalagem, fotografa o blister para identificar onde cortá-lo e separa cada comprimido individualmente. A partir desse momento, cada dose passa a ter uma identidade própria no sistema, com informações como nome do fármaco, concentração, lote e data de validade associadas ao código de barras impresso na embalagem.

Essa rotina já faz parte de três hospitais públicos paulistas que atendem exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS): o Hospital da Mulher, na capital, e os hospitais regionais de Sorocaba e São José dos Campos.

Como funciona o fluxo automatizado

•  A prescrição eletrônica é analisada e validada pelo farmacêutico.

•  O robô localiza, separa, embala e identifica cada dose.

•  Os medicamentos seguem por tubos pneumáticos até o setor assistencial.

•  Horários, profissionais responsáveis e movimentações ficam registrados.

•  O estoque é monitorado em tempo real e os lotes com vencimento mais próximo são priorizados.

Medicamentos chegam em até cinco minutos

Para o médico, a prescrição não muda. A principal transformação ocorre depois dela. Em situações de urgência, um medicamento que antes demorava entre 30 e 50 minutos pode chegar ao setor assistencial em até cinco minutos.

5 min Tempo de entrega em situações de urgência
60% Das caixas dispensadas diariamente passam pelas máquinas
< 1 h Tempo necessário para inventário e conferência do estoque automatizado

No Hospital da Mulher, a reorganização permitiu o encerramento da farmácia satélite da UTI. As atividades foram absorvidas pela operação central, e o farmacêutico foi realocado para funções de validação, monitoramento e assistência ao paciente.

Rastreabilidade e controle

Com a automação, cada comprimido é separado, embalado e identificado. O equipamento integrado à prescrição eletrônica também monitora o estoque em tempo real, prioriza lotes com vencimento próximo e cria barreiras adicionais para medicamentos com nomes semelhantes.

Mecanismos de segurança

•  Confirmações adicionais para medicamentos com nomes parecidos.

•  Alertas ou bloqueios para doses muito acima dos parâmetros configurados.

•  Acesso por crachá aos compartimentos de retirada.

•  Restrição de determinados medicamentos a profissionais autorizados.

•  Dupla conferência antes da liberação do fracionamento.

“Nos hospitais convencionais em que trabalhei, a realização de um inventário podia ocupar a equipe durante duas ou três noites. No sistema automatizado, o levantamento dos produtos armazenados nos equipamentos e sua comparação com os registros hospitalares levam menos de uma hora.”

— Daniele de Paula, gerente de farmácia da Inova Saúde

Nas três unidades públicas, as máquinas já respondem por quase 60% das caixas de medicamentos dispensadas diariamente. Com a reorganização dos itens de maior saída, cerca de dois terços dos pacientes passaram a receber seus medicamentos sem que os farmacêuticos precisassem percorrer o estoque.

Experiência no setor privado

No sistema privado, o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, opera com farmácia automatizada desde 2014. A mudança foi motivada pela expansão da capacidade de atendimento, pelo aumento do número de leitos e pela limitação de espaço físico disponível.

Com os robôs, os estoques puderam ser compactados e etapas como separação, controle de validade e inventário foram automatizadas. A transição também gerou receio entre os profissionais, mas a ampliação da estrutura permitiu absorver a equipe e reduzir a necessidade de novas contratações que seriam exigidas pelo modelo anterior.

“Acredito que, no começo, houve uma fase de receio entre os membros da equipe: ‘Com a chegada desse robô, vou perder o meu emprego?’”

— Débora de Carvalho, gerente de farmácia do Hospital Sírio-Libanês

O hospital também estruturou planos de contingência para manutenções programadas e interrupções inesperadas. Como os equipamentos são modulares, parte do sistema pode ser retirada de operação sem interromper completamente os demais componentes.

A máquina não absorve o erro

Nos três hospitais do SUS, desde o início da operação, não foram registrados erros de dispensação atribuídos ao sistema automatizado. No Sírio-Libanês, também não foram identificados erros provocados diretamente pelo equipamento.

A experiência mostra, porém, que a automação reduz erros de separação, mas desloca os pontos de atenção para as etapas anteriores. A precisão da máquina depende da qualidade das informações e dos produtos inseridos no sistema. Um medicamento cadastrado ou abastecido incorretamente pode seguir por todo o fluxo automatizado.

Resultados citados pela literatura internacional

•  Em um hospital espanhol, a taxa de prescrições dispensadas incorretamente caiu de 1,31% para 0,63%.

•  Em UTIs, um estudo publicado em 2023 registrou redução dos erros de dispensação a zero após a implantação do sistema.

•  Na emergência, a disponibilidade de antibióticos em sistemas automatizados reduziu de 55 para 26 minutos o tempo médio entre prescrição e administração em pacientes com sepse grave.

Uma revisão sistemática publicada em 2025, que analisou 129 estudos sobre automação em farmácia hospitalar, identificou a desblisterização e a unitarização como pontos críticos do processo. Nessa etapa, um medicamento pode entrar no sistema com instabilidade, contaminação ou identificação incorreta.

“Se tivermos uma falha de processo, ela vai aparecer. Quando o processo passa para uma tecnologia muito mais estruturada, esse tipo de falha deixa de ser absorvido silenciosamente.”

— Débora de Carvalho

Nova atuação do farmacêutico

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Farmácia Hospitalar e Serviços de Saúde, Dr. Lindemberg Assunção Costa, a automação não representa apenas a substituição de tarefas manuais por máquinas, mas uma reorganização de todo o sistema de utilização de medicamentos.

“Não se trata apenas de substituir atividades manuais por máquinas, mas de reorganizar todo o sistema de utilização de medicamentos.”

— Dr. Lindemberg Assunção Costa, presidente da Sociedade Brasileira de Farmácia Hospitalar e Serviços de Saúde

A tendência é aproximar cada vez mais a farmácia hospitalar de sistemas digitais, ciência de dados, inteligência artificial e ferramentas de apoio à decisão clínica, ampliando a participação do farmacêutico na segurança do paciente.

O objetivo, segundo o especialista, não deve ser adotar a solução mais complexa, mas selecionar uma tecnologia apropriada, sustentável e capaz de gerar valor para o paciente e para o sistema de saúde.