Robôs transformam a farmácia hospitalar e ampliam a segurança na dispensação de medicamentos.
Hospitais públicos e privados adotam sistemas automatizados para reduzir o tempo de entrega, melhorar a rastreabilidade, controlar estoques e ampliar a atuação clínica do farmacêutico.
Fonte: Medscape · Foto: Reprodução
Um braço mecânico retira o medicamento da embalagem, fotografa o blister para identificar onde cortá-lo e separa cada comprimido individualmente. A partir desse momento, cada dose passa a ter uma identidade própria no sistema, com informações como nome do fármaco, concentração, lote e data de validade associadas ao código de barras impresso na embalagem.
Essa rotina já faz parte de três hospitais públicos paulistas que atendem exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS): o Hospital da Mulher, na capital, e os hospitais regionais de Sorocaba e São José dos Campos.
Como funciona o fluxo automatizado
• A prescrição eletrônica é analisada e validada pelo farmacêutico.
• O robô localiza, separa, embala e identifica cada dose.
• Os medicamentos seguem por tubos pneumáticos até o setor assistencial.
• Horários, profissionais responsáveis e movimentações ficam registrados.
• O estoque é monitorado em tempo real e os lotes com vencimento mais próximo são priorizados.
Medicamentos chegam em até cinco minutos
Para o médico, a prescrição não muda. A principal transformação ocorre depois dela. Em situações de urgência, um medicamento que antes demorava entre 30 e 50 minutos pode chegar ao setor assistencial em até cinco minutos.
No Hospital da Mulher, a reorganização permitiu o encerramento da farmácia satélite da UTI. As atividades foram absorvidas pela operação central, e o farmacêutico foi realocado para funções de validação, monitoramento e assistência ao paciente.
Rastreabilidade e controle
Com a automação, cada comprimido é separado, embalado e identificado. O equipamento integrado à prescrição eletrônica também monitora o estoque em tempo real, prioriza lotes com vencimento próximo e cria barreiras adicionais para medicamentos com nomes semelhantes.
Mecanismos de segurança
• Confirmações adicionais para medicamentos com nomes parecidos.
• Alertas ou bloqueios para doses muito acima dos parâmetros configurados.
• Acesso por crachá aos compartimentos de retirada.
• Restrição de determinados medicamentos a profissionais autorizados.
• Dupla conferência antes da liberação do fracionamento.
“Nos hospitais convencionais em que trabalhei, a realização de um inventário podia ocupar a equipe durante duas ou três noites. No sistema automatizado, o levantamento dos produtos armazenados nos equipamentos e sua comparação com os registros hospitalares levam menos de uma hora.”
— Daniele de Paula, gerente de farmácia da Inova Saúde
Nas três unidades públicas, as máquinas já respondem por quase 60% das caixas de medicamentos dispensadas diariamente. Com a reorganização dos itens de maior saída, cerca de dois terços dos pacientes passaram a receber seus medicamentos sem que os farmacêuticos precisassem percorrer o estoque.
Experiência no setor privado
No sistema privado, o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, opera com farmácia automatizada desde 2014. A mudança foi motivada pela expansão da capacidade de atendimento, pelo aumento do número de leitos e pela limitação de espaço físico disponível.
Com os robôs, os estoques puderam ser compactados e etapas como separação, controle de validade e inventário foram automatizadas. A transição também gerou receio entre os profissionais, mas a ampliação da estrutura permitiu absorver a equipe e reduzir a necessidade de novas contratações que seriam exigidas pelo modelo anterior.
“Acredito que, no começo, houve uma fase de receio entre os membros da equipe: ‘Com a chegada desse robô, vou perder o meu emprego?’”
— Débora de Carvalho, gerente de farmácia do Hospital Sírio-Libanês
O hospital também estruturou planos de contingência para manutenções programadas e interrupções inesperadas. Como os equipamentos são modulares, parte do sistema pode ser retirada de operação sem interromper completamente os demais componentes.
A máquina não absorve o erro
Nos três hospitais do SUS, desde o início da operação, não foram registrados erros de dispensação atribuídos ao sistema automatizado. No Sírio-Libanês, também não foram identificados erros provocados diretamente pelo equipamento.
A experiência mostra, porém, que a automação reduz erros de separação, mas desloca os pontos de atenção para as etapas anteriores. A precisão da máquina depende da qualidade das informações e dos produtos inseridos no sistema. Um medicamento cadastrado ou abastecido incorretamente pode seguir por todo o fluxo automatizado.
Resultados citados pela literatura internacional
• Em um hospital espanhol, a taxa de prescrições dispensadas incorretamente caiu de 1,31% para 0,63%.
• Em UTIs, um estudo publicado em 2023 registrou redução dos erros de dispensação a zero após a implantação do sistema.
• Na emergência, a disponibilidade de antibióticos em sistemas automatizados reduziu de 55 para 26 minutos o tempo médio entre prescrição e administração em pacientes com sepse grave.
Uma revisão sistemática publicada em 2025, que analisou 129 estudos sobre automação em farmácia hospitalar, identificou a desblisterização e a unitarização como pontos críticos do processo. Nessa etapa, um medicamento pode entrar no sistema com instabilidade, contaminação ou identificação incorreta.
“Se tivermos uma falha de processo, ela vai aparecer. Quando o processo passa para uma tecnologia muito mais estruturada, esse tipo de falha deixa de ser absorvido silenciosamente.”
— Débora de Carvalho
Nova atuação do farmacêutico
Para o presidente da Sociedade Brasileira de Farmácia Hospitalar e Serviços de Saúde, Dr. Lindemberg Assunção Costa, a automação não representa apenas a substituição de tarefas manuais por máquinas, mas uma reorganização de todo o sistema de utilização de medicamentos.
“Não se trata apenas de substituir atividades manuais por máquinas, mas de reorganizar todo o sistema de utilização de medicamentos.”
— Dr. Lindemberg Assunção Costa, presidente da Sociedade Brasileira de Farmácia Hospitalar e Serviços de Saúde
A tendência é aproximar cada vez mais a farmácia hospitalar de sistemas digitais, ciência de dados, inteligência artificial e ferramentas de apoio à decisão clínica, ampliando a participação do farmacêutico na segurança do paciente.
O objetivo, segundo o especialista, não deve ser adotar a solução mais complexa, mas selecionar uma tecnologia apropriada, sustentável e capaz de gerar valor para o paciente e para o sistema de saúde.
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